O corpo ainda tremia, os dedos estavam arroxeados e o coração vazio. Poucos barulhos eram ouvidos ali, em sua cabeça, tudo o que emanava era o silêncio, e apenas isso bastava. O rosto se fazia destroçado, minutos pareciam horas e só lhe restava a dor e o desapego. Precisava de um sorriso, de alguma noção e de alguns cigarros. Precisava de sentimentos e de fidelidade, de ter uma ambição e talvez um novo amor.
Suspeitava da ilusão, do egoismo que tornavam-se seus companheiros de anos a fora. Suspeitava que até tivesse um lado respeitavel, e até mesmo da garota da janela da frente. Do mundo que um dia já lhe pareceu belo, e de sua infância destruida em alguns flashs de luz.
Aos poucos os sons voltaram, o ritmo frenetico da "cidade que não dorme", voltava também a mistura de sensações, o desapego e a incapacidade. O chão machucava suas costas, não conseguir levantar machucava a mente e saber que não havia para onde ir machucava seu coração.
Ter um dia se entregado ao mundo, ao sentimento, à garota da janela da frente, lhe trazia dor, que vinha acompanhada de um resto de esperança, e ele, por enfrentar tantas perdas, sabia que era o necessário para sobreviver, não viver ou continuar vivendo, sobreviver ao fracasso que era lançado aos seus olhos cada agoniante dia.
Recuperava os sentidos suavemente, a visão já estava menos turva e a dor de cabeça já iria se manifestar. Percebeu pessoas passando ao seu lado, algumas chegavam a pular seu corpo, ignorando uma alma, que já não era mais tão alma assim, que tinha se perdido em um confuso de emoções.
- A quanto tempo você está aqui?
A garota da janela da frente, agora sentada no meio fio ao seu lado, encarava o nada, absorta em pensamentos, fumaça e seu cachecol vermelho.
- O suficiente.
Mais um trago, mais um ponto, mas um eu em um você.
- Por que eu?
Ela tremeu um pouco, apertou os olhos e quis retruca-lo fria e firme.
- Por que não?
Ah, quem dera ter a resposta para tudo que o atormentava, o obcecava, observava.
- Não quero suas memórias, não quero essa dança e nem esse jogo.
A frieza de seu olhar gelava aos que cruzavam pelo casal, ignorados e ignorantes telespectadores de brigas, de choros, de confissões.
Ela começou a esboçar um sorriso, e aos poucos começou a gargalhar, não estava muito perto do sóbrio, mas estava tão firme, invejando completamente o caro vizinho da janela da frente jogado ao chão.
Por um segundo ela quis se perder em seus olhos tristes. Por alguns dias ele veio se perdendo em seus olhos vazios e seu cachecol vermelho.
Tentou levantar, reestabelecer seu orgulho que, na verdade, nunca tivera. A tontura invadiu a cabeça, e ele precisou dela.
- Eu preciso...
Queria sentir-se adorado, iludido outra vez.
- Você tem.
É só mais um amor, dizia para si mesmo. Amores são como primaveras.
- Você não deveria.
Ele odiava o jogo. Ela odiava o jogador.
- Eu já não posso mais abandonar.
Via por trás daqueles olhos vazios, alguém que acreditava no amor, na dor e nele. Acreditava na música e no poder de um maço de cigarro. Sentia a vida, buscava ajuda e lutava, como ele, pela sobrevivência.
- Um motivo, só o que eu preciso.
Via naqueles olhos puxados uma dor sem igual, um sentimento perdido, e um sorriso reprimido, nas unhas roídas, a ansiedade o esperando através da janela, as duas da manhã, quando ele se embebedava com qualquer vodka barata. Uma ruiva que seguia independente do dia sorrir pra ela ou não.Independente de dores ou aborrecimentos, que por ter só a si mesma, e agora a ele, já lhe bastava.
- O amor já basta.
"There's a reason I don't win, I don't know how to begin."Weekend Wars ~ MGMT
